domingo, 27 de março de 2011

As vezes Julieta, as vezes Capitu e até Marguerite.....





"...En medio del camino había una piedra..."


A pedra que Drummond deixou no meio do caminho teima em brigar com as borboletas de Quintana.
Hoje não quero poesia. Não a poesia lírica que desenha corações no ar e sininhos tilintando. Rompantes emocionais tem soado tão blasé quanto notícias de folhetim. Aliás, não preciso ir muito longe para encontrar esse ar blasé. Basta vasculhar aqui mesmo, nesse espaço que as vezes parece lacuna. No meu peito.É fácil: está tudo na superfície. Quis esconder, mas faltou coragem para enterrar lá no fundo.
Acordei desejando verdades lascivas, fábulas corrosivas, realidade crua e mal temperada. Só pra testar. Só pra variar um pouquinho.
Hoje, Vinicius só serve se for para cantarolar Arrastão. Soneto eu não quero.
Escolho os olhos de ressaca, oblíquos e dissimulados de Capitu, aos ímpetos dramáticos de Julieta ("...O Romeo, Romeo! Wherefore art thou Romeo?...")... Tão apaixonada. Tão desesperada. Tão óbvia. Tão eu!
Ando impaciente com a carência alheia.
Ei, solta a minha mão! Não adianta me olhar assim de lado, nem pedir colo, nem recitar versinho rimado. Desliga essa baladinha romântica e coloca uma do Chico...
Pois é, também sei jogar. Evitei, mas conheço as regras. Sei ser fria, ainda que ache mais gostoso ser quente... É tão mais gostoso.
Mas desisti.
Estou empacotando as vontades e desembrulhando as necessidades. É hora de ser, e não de querer, embora eu tanto queira.
E já chega, porque nada que eu diga você vai entender... Somos espécies distintas e cá estou, engolindo todas as suas verdades para que você não desdenhe mais das minhas.
Pessoa tem toda razão: ‘Quem quer dizer o que sente não sabe o que há de dizer’.
E em verdade, vos digo: nada me falta, porque é a ausência que me enche e entorpece, e de entorpecer em excesso, ganhei a lucidez.
Sou Julieta, mas também posso ser Capitu. E até Marguerite Gautier, aquela... ‘A Dama das Camélias’.
Hoje eu não vou te amar.
Amanhã a gente conversa.
(Porque um trouxa, benzinho, diz qualquer coisa pra se sentir curado.)




Flah Queiroz

2 comentários:

POLYANE disse...

"Estou empacotando as vontades e desembrulhando as necessidades. É hora de ser, e não de querer, embora eu tanto queira..."
Ameeei essa frase, e a que diz:
"Nada me falta pq a ausência que me enche me entorpede..."
Incrível a sensibilidade que os poetas tem de dizer aquilo que sentimos no mais oculto e que não conseguimos verbalizar...

Amelie disse...

eu soprei isso no ouvido dele... certeza...ou gritei mesmo...é mais meu tipo...kkkk...daí ele só transcreveu...